violencia-contra-a-mulherRecentemente, a imprensa informou que o assédio e o abuso sexual nos trens do metrô e da CPTM subiram 62% na comparação do primeiro trimestre de 2015 com o de 2016. O índice foi apurado pelo site jornalístico Fiquem Sabendo, com base em dados da Delpom – Delegacia de Polícia do Metropolitano -, da Polícia Civil. Este número, sem dúvida, é expressivo e obviamente deixa indignado qualquer pessoa com o mínimo de bom senso. A mim, particularmente, não importa se o índice sobe, desce ou se mantém no mesmo patamar da aferição anterior. O que me move é a ocorrência em si, não o seu número ou performance deste. O assédio e o abuso sexual contra as mulheres não deveriam ocorrer no transporte coletivo e em nenhum outro lugar!

Acho, no entanto, que este dado fornecido pelo Fiquem Sabendo merece alguma reflexão. Muito se tem falado e inúmeras campanhas oficiais, de ONGs e de entidades de defesa dos direitos da mulher, são realizadas contra este tipo de violência que acontece no transporte coletivo de São Paulo. Todas elas condenam a ação e estimulam as vítimas a registrarem a ocorrência na polícia, ou seja, fazer o popular B.O. E é deste ponto que nasce o meu questionamento: este índice reflete o aumento das ocorrências ou do registro destas ocorrências? Se tal resultado foi motivado pela elevação no número de B.Os, então devemos comemorar, pois, além da melhora no nível de conscientização, vemos as mulheres ganharem coragem e denunciarem os seus agressores.

Este esforço das mulheres vítimas, que venceu o trauma da agressão e superou o medo para denunciarem seus agressores, precisa resultar em processo, julgamento e prisão dos responsáveis pelo crime. Digo precisa, pois isso não é o que vem acontecendo. Segundo o próprio Fique Sabendo, 98% dos suspeitos detidos por assédio e abuso sexual contra as mulheres nos trens do Metrô e da CPTM no primeiro trimestre de 2016 não ficaram presos. Seus atos foram tipificados como importunação ofensiva ao pudor, cuja pena é o pagamento de uma multa, se o acusado for condenado. Um absurdo! 

O ato violento contra as mulheres, praticado no transporte público ou em qualquer outro lugar e, também, a impunidade dos agressores, não deixam indignadas somente nós, mulheres. A maioria dos homens, tenho certeza, também condena esta violência descabida e se envergonha da impunidade que premia os homens. Estes homens de bom senso precisam participar da luta que busca dar fim à violência contra as mulheres. Não podemos criar uma guerra de gêneros. Esta luta, para ser vitoriosa, não pode ficar restrita ao universo feminino. Ela deve ser ampliada e abranger a sociedade como um todo, abarcando todos os seus níveis.

O homem não pode ser, neste caso, considerado o inimigo comum das mulheres e excluído da luta contra a violência que as atinge. Eles, não devemos esquecer, têm mães, irmãs e filhas e, certamente, não ficarão passivos se souberem que estas “suas mulheres queridas e amadas” correm os mesmos riscos de violência que podem atingir a sua colega de trabalho, a sua vizinha e a sua empregada doméstica.  

Muito já foi feito, está sendo e ainda precisa ser feito para mitigar ao máximo a violência que se comete contra as mulheres e também a impunidade que grassa dentre os agressores, mas é preciso também refletir sobre tudo o que já foi produzido para verificarmos se os resultados que desejamos estão sendo alcançados e se a forma de luta que é empregada segue sendo a mais adequada. Este instante de reflexão que proponho, porém, não significa um afrouxamento ou recuo, mas sim uma avaliação para redirecionamento de forças para que possamos alcançar o objetivo, que é o fim da violência contra as mulheres.

Rosana Chiavassa  /  ASAS

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