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Tecnologia

Em meio à Pandemia do COVID-19, como manter seu direito à saúde mental?

Aline da Silva Freitas Marcelo Alves dos Santos A sociedade está em constante transformação, porém fato notório é que será uma antes do covid-19 e outra pós covid-19.

Aline da Silva Freitas Marcelo Alves dos Santos A sociedade está em constante transformação, porém fato notório é que será uma antes do covid-19 e outra pós covid-19. É possível perceber a rápida mudança: se há poucos dias o Brasil reportava notícias de muito esbanjar alegria por conta do Carnaval, computando ganhos financeiros pelo turismo, o apresentado agora no cenário coletivo, reproduzido na maior parte das redes sociais, é de medo, especulações e precauções diante daquele que já se instalou em nossa sociedade, o coronavírus. Tudo gira em torno de dados reais, mas também, algumas especulações sobre possíveis resultados da chegada do vírus neste ou naquele país.

O que se vê é muito medo, insegurança, incerteza e tristeza, além de crises econômicas agravadas, aumentando a desigualdade e tantos problemas sociais sempre presentes. Se considerarmos antes do covid-19, não havia só o Carnaval, havia também certo consenso da necessidade de postagens, em redes sociais, que demonstrassem "estar tudo bem". Sentimentos criados a partir de um mundo virtual, onde quase tudo é representado por aquilo que as pessoas gostariam que fosse real ou contínuo.

Na medida em que tais movimentos se intensificam no mundo virtual, percebemos na grande maioria dos casos, a transformação da subjetividade, comprometendo a individuação e subordinando a esfera privada a uma razão tecnológica. E assim, o Instagram e o Facebook foram inundados por selfies de pessoas esbanjando felicidade, reforçando o mundo dos espetáculos virtuais, transformando o privado em público, convertendo o sujeito em objeto de si mesmo. Cujo resultado, é a vida girando entorno das redes sociais, tornando as postagens protagonistas de qualquer passeio.

Um exemplo disso, é o período recente de férias e festas de final de ano, pois parece que todo mundo viajou ou realizou atividades incríveis. Durante o ano, os finais de semana costumam representar felicidade contínua, sendo a semana árdua por conta de trabalho e estudo. Não percebemos, ou fingimos cinicamente não perceber, que a dura e atual realidade, deveria ser o suficiente para que as pessoas não se iludissem com curtidas, ou mesmo, compartilhamentos.

No entanto, nota-se significativa diferença no momento presente: alguns com postagens educativas e solidárias ao caos gerado pela pandemia, enquanto, infelizmente, de outro lado vemos inúmeros "memes" e outras postagens debochadas a respeito da quarentena e da pandemia, numa tentativa de subversão da realidade social e manutenção da ilusão promovida nesses espaços. Em outros, notamos ainda uma certa alienação. Ou seja, o "mundo de Alice" permanece, numa negação das contradições sociais, amenizando o impacto que a realidade anuncia, mortes mundo a fora.

Sabemos que tristeza dá medo e parece-nos contraditória. A tristeza não é publicável, pois demonstra fraqueza e vulnerabilidade. O medo também parece tudo isso, já que deriva da sensação de insegurança, cuja prevalência pode levar a falta de confiança em si mesmo, com possível extensão às instituições constituídas.

Porém, perceba, que a tristeza pode ensinar e o medo a prevenir. A bem da verdade, estudos demonstram que no nosso dia-a-dia temos momentos de felicidade e de tristeza, assim como outras emoções básicas. Porém, alguns problemas são localizados quando experienciamos o excesso de alguma delas ou o prolongamento de algumas delas; mesmo a felicidade "em excesso e contínua" pode desembocar em euforia.

Ser humano é ser rico em emoções. Sentir, viver e deixar transparecer os seus impactos. Há na vida uma busca incessante pela felicidade, pois um ser que busca seu desenvolvimento pleno, busca por mais momentos em que possa sentir bem-estar.

Já, a tristeza podendo ser vista como fonte de aprendizado, traz em sua existência a oportunidade de se saber como lidar melhor ela. Este ponto passa por aspectos de saúde mental. A saúde é um direito de todos e dever do Estado, apresentado no texto da Constituição Federal.

Mas o que isso significa? Que qualquer pessoa, independentemente de qualquer característica, deve ter acesso à promoção de sua saúde física e mental, bem como aos tratamentos eventualmente necessários para que se recupere. Significa ainda que o Estado precisa mobilizar recursos e pessoas para assegurar toda uma estrutura em prol disto.

No entanto, não podemos ignorar o seguinte fato, que a saúde mental perpassa pela própria colonização do imaginário, frente a concepção do entendido como sendo normal ou patológico no indivíduo. Pois, tal entendimento sobre saúde mental, também é atravessado pelo momento histórico no qual vivemos, delimitado pela fluidez dos vínculos, marca desta sociedade contemporânea, inserida nas próprias características da modernidade, mas também, pela sobrevivência em tempos de covid-19 e futura recessão econômica. Nesse momento, adentramos numa projeção de possíveis transformações que impactarão na sociedade pós-coronavírus.

O cumprimento pelo Estado, da obrigatoriedade à saúde, não é tarefa fácil, muito menos em um cenário de pandemia, em que para o próprio gestor público faltam respostas para as mais diversas perguntas. De qualquer forma, várias medidas foram tomadas e estamos sendo cotidianamente atingidos, porém serão todas efetivas? No momento, espera-se que o Estado empenhe todos os esforços em evitar a propagação de casos de infecção pelo COVID-19, evitando o risco da doença, auxiliando a população a se manter calma e bem orientada, por meio de informações oficiais claras.

Em outras palavras, por óbvio, que é dever do Estado manter a população informada do que é e como fazer diante de eventuais sintomas do vírus, bem como o tratamento adequado de infectados, respeitando os desdobramentos do princípio da publicidade que orienta a atividade da Administração Pública e do seu dever com relação à efetividade do direito à saúde. A atuação do Estado, demonstrada e explicitada em coletivas quase que diárias, ilustram sua ação frente a pandemia, mas e das pessoas, o que se pode esperar? Acredita-se que para a grande maioria está sendo difícil ver escolas e outros espaços fechados, empresários pensando no que pode acontecer ou no que vai efetivamente acontecer, prejuízos financeiros às claras e, sobretudo, o crescente número de diagnósticos e casos em análise.

Difícil também a questão de ter de se adaptar a novas/velhas rotinas de cuidados de higiene pessoal, orientações de distanciamento, isolamento e mudanças bruscas em rotinas. Nota-se que algumas pessoas já estão em pânico, mesmo em casa, no trabalho ou no deslocamento. Mas, há àqueles que estão descobrindo novas formas de otimizar o tempo em casa ou como melhorar a dinâmica e o ambiente de trabalho, ou ainda, como se deslocar com mais cuidado para evitar a contaminação.

De qual lado você está? Se do segundo, apenas siga, persista na colaboração. Se do primeiro lado, o que pode fazer para mudar de perspectiva?

É claro que o novo, o diferente, ou mesmo, a falta de uma vacina lembrando sobre nossa mortalidade assusta, mas será que não é possível olhar de maneira diferente para tudo isso? Que tal se inteirar do fato de que muito está sendo feito no Brasil e no mundo para combater o covid-19? Neste momento, apesar da dificuldade apresentada, buscar equilíbrio emocional, ora traduzido em melhor tomada de decisões sobre a condução do dia-a-dia, ora em como lidar com os problemas, que já transformam a realidade.

Realidade esta que antes fora negada e que agora é enfrentada neste combate diário, mas que é iniciado em nossa própria mente. Assim, além dos cuidados básicos de higiene, isolamento voluntário ou determinado, e orientações já dadas por autoridades públicas no mundo inteiro, se faz o convite ao bem da saúde mental, reforçados por conteúdos informativos construtivos. Nesse sentido, as redes sociais podem representar importante ferramenta para esta manutenção, desde que não especule desastres ou caos, não se torne fonte de "Fake News" e nem espaço de alienação de um "Mundo de Alice".

Cada pessoa pode assim colaborar com a disseminação de uma efetiva cultura de informações e orientações reais, levando ao sentimento de paz e harmonia, alterando o estado de pânico e propiciando de forma séria o direito à saúde mental de todos. Lembremos que paz dá sentido à nossa vida e não se realiza sem esforços individuais e coletivos. Lembremos ainda que o texto da lei fala em dever do Estado em promover saúde, mas será que cada pessoa não pode ajudar?

Em sugestão, a saúde é direito de todos, só que também é dever de todos. Em resumo, que o Estado faça sua parte e que possamos aguardar bons resultados dos programas e políticas públicas em andamento, e que cada ser humano, cidadão conectado com o sentido de pertencer à comunidade brasileira e global, também possa se dispor a cuidar de sua própria saúde mental e com a dos outros, eis que cada um conta. Fonte: Aline da Silva Freitas é mestre em Direito Político e professora da Universidade Presbiteriana Mackenzie Campinas.

Marcelo Alves dos Santos é doutor e mestre em Psicologia Social e professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie Campinas. Leia mais: • Especialista em direito digital do Mackenzie é premiada no Client Choice Award 2020 • COVID-19: Entidades do setor de Saúde pedem medidas urgentes ao STF contra abusos de autoridade • Os impactos do coronavírus na previdência privada

Publicado em 16 de abril de 2020
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